Bate Bola: Ruy Castro

 

Ruy Castro é jornalista e escritor, mas costuma dizer que seu trabalho não é no campo da literatura, mas da “reconstituição histórica”. Acima de qualquer classificação, porém, está seu talento em descobrir, apurar e contar boas histórias. Nesta entrevista concedida à seção Bate Bola da newsletter do Museu do Futebol, ele fala sobre o sucesso do livro “Estrela Solitária” (a sua biografia sobre Garrincha) e corneta a superficialidade das conversas entre jogadores e repórteres.

1. Quando foi lançado, em fins de 1995, “Estrela solitária” ficou por meses entre os livros mais vendidos do país, inclusive liderando a lista em algumas semanas, um fato raro para obras com temática futebolística. O livro quebrou certo preconceito que se tinha em relação aos livros sobre futebol?

O preconceito já começara a ser quebrado em 93, quando soltamos o “À sombra das chuteiras imortais”, do Nelson Rodrigues, e em 94, com “A pátria em chuteiras”, também do Nelson, ambos editados por mim para a Companhia das Letras. O primeiro teve muito público feminino e foi até adaptado para um balé aqui no Rio, pela coreógrafa Rosella Terranova, que mal sabia quem era a bola — a idéia foi dela! Quando “Estrela solitária” saiu, talvez já houvesse uma suposição de que livros “de futebol” podiam ser de interesse geral. Meu nome pode também ter ajudado, mas, na hora dos vamos-ver, quem decide por quem o livro será lido é o próprio livro.

2. As lendas do futebol são, muitas vezes, verdadeiras obras primas da ficção. Qual delas você mais gostaria que fosse verdade – ou mais quer acreditar que seja?

Na verdade, não gosto de nenhuma lenda. Como biógrafo, sou obrigado a ser uma espécie de idiota da objetividade, não?

3. Hoje “Estrela Solitária” é referência para aqueles que trabalham com a memória do futebol. Houve algum livro que tenha tido essa importância para você quando começou a escrever a biografia do Garrincha?

Muita coisa, não só livros. Além do óbvio “O negro no futebol brasileiro” e todos os livros do Mario Filho, inclusive os antigos [que achei quando fazia “O anjo pornográfico”] e as crônicas do Nelson, era fã também do tricolor Ney Bianchi escrevendo sobre futebol na “Manchete Esportiva”, do vascaíno José Araújo em “O Jornal” e do humorista Everardo Guilhon, que assinava a coluna “As orelhas ardem” do “Diário de Notícias” com o pseudônimo Super Xis-Xis, que era Flamengo. Eles me foram importantes como leitor em criança, não para escrever o “Estrela solitária”.

4. Por último: porque jornalista faz sempre a mesma pergunta e jogador devolve sempre a mesma resposta?

Falta de imaginação do jornalista e reflexo condicionado do jogador. O jogador não tem culpa de ser assim [e alguns --- Zico e quase todo o Flamengo do tempo dele, Paulo Cesar Caju, Gerson, Carlos Alberto, Sócrates --- não são ou não eram]. Já o jornalista tem culpa, sim — ou o chefe dele.